quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

OCLUSÃO


Onde estão
As sementes do caos que plantei
Os monstros que libertei
Os cânceres que causei
E as mulheres que violei?

Onde estão
As bocas que amordacei
As palavras que calei
As gargantas que cortei
E as guerras que deflagrei?

Onde estão
Os sangramentos que não estanquei
Os rostos que desfigurei
As lágrimas que não chorei
E as fontes que sequei?

Onde estão
Os corpos que prostituí
Os vinhos que não bebi
Os cacos de vidro que engoli
E as vidas que destruí?

Onde estão
Os sorrisos que não sorri
Os risos que não ouvi
As paixões que não senti
E os amores que não vivi?

Onde estão?

Onde estou?

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

ÚLTIMO BEIJO

Naquele último beijo
Fui capaz de sentir a frieza da pedra de gelo
Que colocaste em minhas costas
Naquele último beijo
Fui capaz de sentir o gosto do sangue
Que eu via em teus olhos
Naquele último beijo
Fui capaz de sentir o amargo daquele café
Que nada conseguia adoçar
Naquele último beijo
Fui capaz de sentir o ácido da tua saliva
Dilacerando minha língua
Naquele último beijo
Fui capaz de sentir a dor das tuas unhas
Cravadas em meu pescoço
Naquele último beijo
Pude sentir o peso do teu corpo
Deslizando sobre mim
Naquele último beijo
Fui capaz de sentir a ventura e o alívio
De atravessar com um sabre o teu peito
E de te ver esmaecendo ao chão.
Era só o último beijo.

sábado, 8 de janeiro de 2011

ENCENAÇÃO MÍSTICA

Madrugada!
Vejo sombras subirem a calçada
Outras se escondem por entre a mata
E nos arbustos, gatos negros assustados.
Calada!
Almas avançam os sinais
Atravessam o vão das ruas
Um gemido corta o silêncio do ritual
E atormentam as estrelas
Que são suas
O céu!
A cortina negra que cobria as estrelas
Agora toca o chão
E o suor corre pelas suas mãos
Lava as almas que ali estão.
E correm!
Novamente se escondem
Não sabem a razão de ser
Nos olhos, sentimento passageiro
Como esta noite
E o dia que irá nascer.

sábado, 1 de janeiro de 2011

DEZEMBRO

Em angústia incessante
Insensível e impiedosa
Esfolio a minha alma
Com lágrimas densas
Eu rasgo meu peito
E com unhas brancas e frágeis
Arranco meu coração
Dilacero minhas costelas
E com sangue que escorre
Ruborizo mil telas
O que escorre ao chão
Coagula e enrijece
Insensata e noética
Volto-me ao chão
Evanescente e à meia-noite
No fim de dezembro.