quarta-feira, 16 de novembro de 2011

VINTE E NOVE MINUTOS


Incerta é a certeza do meu eu
Inconstâncias e incongruências
Da destreza, a ausência
Descompassos aos olhos do mundo
A contemplar remanescências

Os restos de uma imagem
Num espelho estilhaçado
Riso contido e choro latente
Passos de dança sem chão
Na falta de gravidade de minh'alma

Impulsos calados
Ação e reação
A razão do imprevisível.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

TRANSCENDENDO HORAS

Na desordem do meu cérebro
O pensamento errou o giro e se perdeu
Giros que se transformam em nós

Desintegro-me e me escondo sob o pó
Dos meus livros espalhados
Pelo chão do quarto

Reintegro-me
Devoro-te e regurgito
Arrependo-me
Choro e grito

Prende-me a cada palavra
Se fores capaz
E eu escapo sagaz

Transformo minutos em horas
Perco-me em histórias
Na desordem do meu pensamento
Inquieto-me
Canso-me
E adormeço.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

ENTRAVES

Essa ira que transborda em meus dias
E os entraves que me impedem de aplacá-la
Nessa estrada tão longa
Que, por hora, não me atrevo a encurtá-la.
Entre travas e trancas
Uma roda denteada
Traciona minha existência
Num atrito sem fim
Trafega e me tortura
Faz pedaços de mim
E me entrego a essa loucura
E me estilhaço em entrelinhas.
Entre grades e traves
Entre janelas e porões
Entre tempestades e trovões
Deixo a porta entreaberta
E não me dou trégua
Desfaço-me em dor, crueldade e solidão. 

segunda-feira, 13 de junho de 2011

AMANHECER


Os raios de luz de um sol tão frio
Atravessam a cortina do quarto
E ferem minha pele feito navalha.
Outra manhã vazia
Outro dia que amanhece
Outro dia que agoniza
Já implorando para terminar.
O vento frio da tarde
Arranca de mim
Todo o resto de sonho
Todo o resto de sono.
A noite cai
E, com ela, o peso do mundo
A luz do luar
Na ponta da nuvem
Me protege da escuridão
Dá-me tua mão
Leva-me daqui
Embala meus pesadelos
Mas não me deixa amanhecer novamente.

sexta-feira, 18 de março de 2011

TRANSFORMA-ME

Toma-me nos braços
Joga-me no ar
Transforma-me em vento
E sente-me dissipar.

Beija-me a boca
Transforma tua saliva em palavras
Doces ou macabras
Sussurra em meu ouvido.

Pega minha mão
Gira-me no salão
Transforma-me em suor, toma dessa água
E mata tua sede de mim.

Pega meu coração
Joga-o no ar
Faz-me de novo dissipar
Transforma-me em tempestade
E atira-me no mar.

quinta-feira, 3 de março de 2011

O VENTO


O vento voraz
Em ventarolas vedadas
Em vórtices velozes
Via vidas valadas
Via vidas vadias
O vento vulcânico
Vagava em você
Vestia-lhe um véu
Voluptuoso e vagante
Vendava-me em vão
Eu velejava a lhe ver
As velas viris
Levavam-me ao vazio
Às vagas voláteis
De vinhedos e ouros
Viagens vindouras
Voltava-me ao voo
Voltava-me ao vão
Voltava-me ao chão.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O GRITO


Aquele grito que em mim soava
Tão distante me ensurdecia
Dissonante e angustiante
Destoava e me enfraquecia
Uma mescla perversa
De som e poesia
Tão selvagem e suicida
Era o canto da morte
Que em versos se desfazia
Sussurrava e ensandecia

Sentara-se à sombra
A noite caia
Deixara para trás
O que não mais lhe era vida
Seus passos tão ensaiados
Como dança maldita
Aos poucos, se afastavam

Sentiu pulsar a raiva
Sentiu estilhaçar os vidros
Sentiu que o sangue que lhe escorria
Sentiu o que queria
Sentiu que aos poucos desaparecia.

Ouviu-se o grito.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

OCLUSÃO


Onde estão
As sementes do caos que plantei
Os monstros que libertei
Os cânceres que causei
E as mulheres que violei?

Onde estão
As bocas que amordacei
As palavras que calei
As gargantas que cortei
E as guerras que deflagrei?

Onde estão
Os sangramentos que não estanquei
Os rostos que desfigurei
As lágrimas que não chorei
E as fontes que sequei?

Onde estão
Os corpos que prostituí
Os vinhos que não bebi
Os cacos de vidro que engoli
E as vidas que destruí?

Onde estão
Os sorrisos que não sorri
Os risos que não ouvi
As paixões que não senti
E os amores que não vivi?

Onde estão?

Onde estou?

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

ÚLTIMO BEIJO

Naquele último beijo
Fui capaz de sentir a frieza da pedra de gelo
Que colocaste em minhas costas
Naquele último beijo
Fui capaz de sentir o gosto do sangue
Que eu via em teus olhos
Naquele último beijo
Fui capaz de sentir o amargo daquele café
Que nada conseguia adoçar
Naquele último beijo
Fui capaz de sentir o ácido da tua saliva
Dilacerando minha língua
Naquele último beijo
Fui capaz de sentir a dor das tuas unhas
Cravadas em meu pescoço
Naquele último beijo
Pude sentir o peso do teu corpo
Deslizando sobre mim
Naquele último beijo
Fui capaz de sentir a ventura e o alívio
De atravessar com um sabre o teu peito
E de te ver esmaecendo ao chão.
Era só o último beijo.

sábado, 8 de janeiro de 2011

ENCENAÇÃO MÍSTICA

Madrugada!
Vejo sombras subirem a calçada
Outras se escondem por entre a mata
E nos arbustos, gatos negros assustados.
Calada!
Almas avançam os sinais
Atravessam o vão das ruas
Um gemido corta o silêncio do ritual
E atormentam as estrelas
Que são suas
O céu!
A cortina negra que cobria as estrelas
Agora toca o chão
E o suor corre pelas suas mãos
Lava as almas que ali estão.
E correm!
Novamente se escondem
Não sabem a razão de ser
Nos olhos, sentimento passageiro
Como esta noite
E o dia que irá nascer.

sábado, 1 de janeiro de 2011

DEZEMBRO

Em angústia incessante
Insensível e impiedosa
Esfolio a minha alma
Com lágrimas densas
Eu rasgo meu peito
E com unhas brancas e frágeis
Arranco meu coração
Dilacero minhas costelas
E com sangue que escorre
Ruborizo mil telas
O que escorre ao chão
Coagula e enrijece
Insensata e noética
Volto-me ao chão
Evanescente e à meia-noite
No fim de dezembro.