sexta-feira, 8 de março de 2013

A POEIRA


Posso dizer que sofro de imaginação fértil. Eu, nas minhas inúmeras viagens ao mundo da lua, acabo tropeçando nos meus próprios pensamentos e acabo nem lembrando por que eu estava pensando em determinada coisa.

Pois bem, o caso é que hoje eu lembrei que tenho um blog. Resolvi entrar, ver o que estava escrito. Li o que nem lembrava que eu havia escrito. Li palavras doces, mas ao mesmo tempo, pesadas e doloridas. Percebi que precisava tirar as teias de aranha e bater a poeira deste humilde espaço.

Bater a poeira... Tá aí uma coisa que muitas vezes não nos lembramos de fazer. Não falo da poeira do quarto, da estante... Falo da poeira da alma. Daquela poeira que pesa tanto, que chega a causar dor. Daquela poeira que, de tão espessa camada, mal nos permite nos enxergar no espelho; não nos permite olhar pra dentro. Acho que foi esse o motivo de não ter mais escrito nada aqui. A tal da poeira não deixava. A poeira que precisava ser retirada de cada cantinho da minha vida, com muita dedicação e paciência.

Passei por muitas intempéries num curto espaço de tempo. Mas eu precisava desse tempo. Colocar algumas coisas na balança, separar as que não serviam mais e tirar a poeira das que ainda poderiam me ser úteis. No meio dessas coisinhas que ainda me serviam, lá estava meu pobre coração que, de tão empoeirado, pulsava fraquinho. Juro que o esqueci num cantinho da minha vida, que nem lembrava onde. Nem lembrava quando. Tê-lo encontrado de novo me fez um bem danado. A mim e a ele. Tirar a poeira o fez bater novamente com mais força, com mais alegria.

Daí resolvi pintar o sete, o oito o nove... Nessa brincadeira, acabei sujando a alma das mais diversas cores. Não satisfeita, resolvi lavá-la com a água de uma deliciosa chuva de verão. Só não posso dizer (ainda) que encontrei o pote de ouro no fim do arco-íris. Pode ser até que já o tenha encontrado, só não tive tempo de reparar. Mas há tempo, sempre há.

E você? Já bateu a poeira da sua vida hoje?

sexta-feira, 29 de junho de 2012

ALCANCE


Ao alcance do vento, do tempo, do som
Preparo-me para o teatro diário
Retoco meu batom
Contorno novamente os olhos
Os traços que a lágrima apagou.
Ao alcance do vento
Que me arranca a umidade, o medo
Dedilha meus cabelos
Uivante e intenso
Ouriça-me os pelos.
Ao alcance do tempo
Que me traz manchas e sinais
Pintas e rugas
Rio daquilo que não posso mais.
Ao alcance do som
Palavras que não fazem mais sentido
Uma sequência de tons e acordes
De sons e silêncio
Música para meus ouvidos.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

VINTE E NOVE MINUTOS


Incerta é a certeza do meu eu
Inconstâncias e incongruências
Da destreza, a ausência
Descompassos aos olhos do mundo
A contemplar remanescências

Os restos de uma imagem
Num espelho estilhaçado
Riso contido e choro latente
Passos de dança sem chão
Na falta de gravidade de minh'alma

Impulsos calados
Ação e reação
A razão do imprevisível.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

TRANSCENDENDO HORAS

Na desordem do meu cérebro
O pensamento errou o giro e se perdeu
Giros que se transformam em nós

Desintegro-me e me escondo sob o pó
Dos meus livros espalhados
Pelo chão do quarto

Reintegro-me
Devoro-te e regurgito
Arrependo-me
Choro e grito

Prende-me a cada palavra
Se fores capaz
E eu escapo sagaz

Transformo minutos em horas
Perco-me em histórias
Na desordem do meu pensamento
Inquieto-me
Canso-me
E adormeço.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

ENTRAVES

Essa ira que transborda em meus dias
E os entraves que me impedem de aplacá-la
Nessa estrada tão longa
Que, por hora, não me atrevo a encurtá-la.
Entre travas e trancas
Uma roda denteada
Traciona minha existência
Num atrito sem fim
Trafega e me tortura
Faz pedaços de mim
E me entrego a essa loucura
E me estilhaço em entrelinhas.
Entre grades e traves
Entre janelas e porões
Entre tempestades e trovões
Deixo a porta entreaberta
E não me dou trégua
Desfaço-me em dor, crueldade e solidão. 

segunda-feira, 13 de junho de 2011

AMANHECER


Os raios de luz de um sol tão frio
Atravessam a cortina do quarto
E ferem minha pele feito navalha.
Outra manhã vazia
Outro dia que amanhece
Outro dia que agoniza
Já implorando para terminar.
O vento frio da tarde
Arranca de mim
Todo o resto de sonho
Todo o resto de sono.
A noite cai
E, com ela, o peso do mundo
A luz do luar
Na ponta da nuvem
Me protege da escuridão
Dá-me tua mão
Leva-me daqui
Embala meus pesadelos
Mas não me deixa amanhecer novamente.

sexta-feira, 18 de março de 2011

TRANSFORMA-ME

Toma-me nos braços
Joga-me no ar
Transforma-me em vento
E sente-me dissipar.

Beija-me a boca
Transforma tua saliva em palavras
Doces ou macabras
Sussurra em meu ouvido.

Pega minha mão
Gira-me no salão
Transforma-me em suor, toma dessa água
E mata tua sede de mim.

Pega meu coração
Joga-o no ar
Faz-me de novo dissipar
Transforma-me em tempestade
E atira-me no mar.